Fala da vitrola, no texto de Flusser: Animação cultural

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   No fundo, a nossa Revolução não passa de inversão da relação “homem-objeto”. Em vez de funcionarmos em função da humanidade, esta passa a comportar-se em função do nosso próprio funcionamento. Passamos nós a ser os animadores da humanidade. É em função de mesas, tijolos, lâmpadas elétricas e aparelhos de TV que a humanidade vive, isto é: é em função de nós, os objetos, que a humanidade é animada. A nossa função, os objetos, é animar a humanidade, programá-la. Se tivermos plenamente nos conscientizado dessa nossa função, fundamentalmente filantrópica, teremos levado a nossa Revolução até a sua gloriosa meta. “Animação cultural” é pois nosso brado de guerra revolucionária vitoriosa. 

   Eu não poderia concordar mais, minha querida amiga Mesa, percebo a minha função animadora de humanos com clareza. Durante vários dias, observo os humanos em diferentes situações (algumas que não consigo nem descrever à vocês, meus camaradas-objetos) e humores. Porém, todas as vezes que sou colocada para funcionar, o ambiente muda, mesmo que o que eu estiver tocando não seja exatamente feliz, mas um sentimento de conforto e segurança se espalham pelo cômodo assim como o meu som. Não estou dizendo que cheguei à plena conscientização que devo, ainda não entendo totalmente os humanos e nem como anima-los perfeitamente, entretanto estou no caminho! Enquanto leio-cantando os adorados discos dos humanos, sei que estou caminhando à nossa meta!

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